Meu casamento com o diabetes vai bem, obrigada!

Texto de Heloísa Altenbourg, diabética tipo 1 há 20 anos

 

O que falar de um casamento que vai completar 20 anos nesse ano de 2013? Que eu pude aprender muitas coisas.

Sou Heloisa Altenburg, 21 anos completos , estudo Administração e faço estágio na área, e sim, tenho uma vida normal.

Fiquei diabética quando eu era muito pequena, com apenas 2 anos de idade. Não sei explicar como meus pais conversaram comigo, mas minha relação com o diabetes sempre foi boa. E quando digo boa, quero me referir a momentos que eu pude realmente ficar maluca por causa da glicose e momentos em que eu me orgulhei por olhar a glicose estar em 110, 120.

Ah, e porque eu falo que eu sou casada com a diabetes? Pelo simples fato que a doença me proporciona momentos bons e ruins em relação a ela mesma, assim como é feita a nossa vida e nossos relacionamentos. Não me permito reclamar da diabetes, e muito menos de fazer os outros terem pena de mim por eu ser doce.

Muito pelo contrário, eu saio falando para todos que eu sou doce, quase um caramelo, e é super importante as pessoas saberem, muitas delas ainda tem dúvidas de como o tratamento é feito e eu adoro explicar para alguém que tem curiosidade. Não me permito reclamar dessa doença ( não gosto dessa palavra mas vamos lá..) devido a nossa ciência, que nos mostra todos os dias como tem pessoas em condições muito piores que a diabetes, com doenças severas.

Não vou mentir que já tive crises existenciais me perguntando: ”porque eu?” E numa dessas minhas crises cheguei a conclusão de que eu sou doce porque é a minha missão nesse mundão. Missão de poder fazer com que as pessoas que descobrem, ou que tem diabetes e acham horrível, saber que pode-se ter uma vida extremamente normal, e feliz. De poder ensinar para as pessoas o que realmente é o diabetes (muitas pessoas ainda não sabem), o que os diabéticos passam diariamente e quais são as consequências de não aceitar e controlar. (Confesso também que é o meu maior medo, as consequências).

Mesmo fazendo o auto-monitoramento 7 vezes por dia e me aplicando 9 vezes consigo sim ser feliz (obrigada) e ter uma vida normal. E entenda que é desse jeito que eu consigo manter minha glicose em níveis esperados. A única coisa que eu acho ruim são os efeitos que eu sinto quando tenho uma hiperglicemia ou uma hipoglicemia. Na hiper eu realmente fico agitada, estressada, irritada, (não, não é TPM!), com dor de cabeça e enjoos. E na hipo eu sinto uma sonolência fora do normal, minha vontade é de dormir em qualquer lugar.

O que eu posso falar de tudo isso é que ser doce é uma experiência muito maluca, cada dia aprendo um pouco mais sobre a doença e como me portar junto a ela. Também preciso confessar que acho maluca (e engraçada) a situação quando tentam ajudar me dando receitas de chás ou compostos naturais que ‘realmente’ funcionam, se eu tivesse escrito todas que já me passaram com toda a certeza daria um livro.

Eu aceito a sua ajuda, só por favor entenda que eu tenho opções para ter uma vida tão normal quanto a sua, e não me imponha que eu ” devo tomar esse chá porque o amigo do fulano toma e ele não precisa de insulina.” Acho que cada diabético sabe o que é melhor para si. Eu já tive experiências ruins com as insulinas NPH e Regular, mas conheço muitos que fazem o uso das mesmas e não tem reação alguma.

O que posso afirmar é que nos dias de hoje a gama de produtos diet está muito boa, e os aparelhos e insulinas também. Eu cheguei a pegar a época em que não se existia o aparelhinho, mas cá estou eu, viva e feliz. Falo abertamente sobre diabetes pelo fato de meus pais nunca esconderem das pessoas a minha doença e de me tratarem normalmente, com os olhos um pouco mais abertos.

Mas nunca houve uma situação em que minha mãe fez escândalos porque eu havia comido doce, nossa relação sempre foi aberta, ela cuidou de mim até os 16 anos, e eu avisava quando queria comer algo ‘proibido’. Sempre foi, e espero que sempre será assim recíproco. E prefiro não falar, neste caso escrever, muito que me dou bem com a minha diabetes porque tem dias em que ela me diz: ” Ah, é? Então vais ver como é se dar bem comigo” e dá alguns momentos/dias de loucura em que eu e ela nos desentendemos. Mas com tudo que vejo nos dias atuais, ainda agradeço por ter sido escolhida para ser doce!

24 Comentários


  1. LIndo! Muito lindo o depoimento tenho um filho tem 10 anos DM a 2 anos e minha meta é que ele pense e sinta dessa forma.
    A pergunta a se fazer não é “por que ?” e sim “pra que?”
    beijos e parabéns!

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  2. Adorei o seu depoimento sob diabetes.Também sou diatetica já fazem uns 24 anos a do tipo 1 já com 30 anos foi que ela apareceu na minha vida, Tenho o mesmo conceito de vida q a sua, ñ fico lamentando por isso, já passei tb por algumas hipoglicemia e dei varios sustos na minha família. Na hiperglicemia tb ficou atacada mais logo a glicose resolvida td volta ao normal. Falo tb abertamente o pessoal ainda tenta esconder,mais é pura besteira e como vc falou tem coisas piores q ñ podemos fazer nada.E nos ainda podemos fazer quase td,que a vida nos proporciona. Só acho que os medicamentos e alimentação deveriam ser mais baratas, para q tdos tivessem o direito de fazer mais usos.Gostaria muito de poder falar com vc,pois temos muitas coisas parecidas,ñ gosto muito de escrever. E teria que ser um livro para poder contar td e rimos com as nossas maluquices…Tdo de bom pra vc. Um ótimo final de semana, que DEUS TE GUARDE E TE ILUMINE…Um abraço DOCE.rsrsrs

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  3. Também completo 20 anos de diabetes tipo 1esse ano. Pena que nossa relação não seja tão amigável assim.

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    1. Oi Odinair! Tudo bem? Para que a relação com o diabetes seja amigável, a primeira coisa que tem que acontecer é a aceitação, e assim, aceitando esta condição, a pessoa consegue se habituar a uma nova rotina de vida, a uma nova maneira de pensar… Nós, diabéticos, acabamos nos tornando mais seletivos, e começamos a buscar somente aquilo que nos faz bem, que nos faz sentir mais saudáveis, e deixamos de lado tudo aquilo que nos faz mal e que nos afasta de um bom controle. Basta nos aceitarmos, e aceitarmos nossa condição! Um grande abraço!

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  4. Muito bom esse relato da Heloísa, tbm sou diabetica ou melhor pre-diabetica e tbm vivo normalmente, as vezes cometo uns abusos sempre procuro me controlar….

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    1. Que bom que você gostou do depoimento da Heloisa, Yasmin! Esses pequenos abusos “fazem parte”! De vez em quando é bom “enfiar o pé na jaca”, mas desde que com bastante consciência! Senão a gente não vive, né! Um grande abraço!

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  5. Nossa,lindo seu depoimento e tenho certeza que mt gente queria ter essa visão como a sua em relação ao diabetes,tenho um filho diabético tipo 1,hoje são sete anos lidando com essa condição de vida ,mais ele não entende ,não tem bom controle ,faço tudo que me ensinam,chás,receitas,mais de dez testes diários temo pelas saúde dele ,é meu filho e não sei se saberia viver sem ele, faz consultas todo mês ,tudo que posso eu faço para as glicemias dele controlar .Vou copiar seu Texto pra ele ler quem sabe o ajude.Ele tem 12 anos hj e espero que ele chegue a vida adulta assim com essa vontade de viver que vc tem ,um Bjao minha amiga ,foi mt bom ter lido seu post .Saúde sempre.

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    1. Obrigada Elizangela! A Heloisa vai adorar ver o seu comentário! Com bastante otimismo ele vai conseguir superar essa fase de revolta e vai conseguir ter uma relação amigável com o diabetes! Um grande abraço! Bianca

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  6. Belíssimo depoimento!Parabéns.No início briguei muito com ela,mas era porque fazia tudo certo e a resposta nunca era a mesma.Agora desencanei,pois sei que diabetes não é como matemática,onde dois mais dois são quatro.Há outros fatores envolvidos.E há o lado bom,nossa alimentação é sempre a mais saudável,praticamos exercícios,e assim nos cuidamos mais,com exames regulares.Um doce e caloroso abraço a você .É muito bom ver pessoas como você,que não têm vergonha de falar sobre o diabetes,e assim,ajudar outras pessoas.

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    1. Que bom que você gostou do depoimento da Heloísa, Marilourdes! O grande segredo para se ter uma boa convivência com o diabetes é realmente desencanar e aceitar o diabetes, com todos os seus altos e baixos, e procurar fazer o melhor para conseguir ter um bom controle. Nós sabemos que é praticamente impossível chegar a níveis glicêmicos como os de uma pessoa sem diabetes. Mas, quanto mais próximo do normal conseguirmos chegar, melhor para nós! O que realmente importa é podermos viver e aproveitar tudo sem aquele stress e aquela paranóia, porque se ficamos frustrados é muito pior para a nossa saúde! Um grande abraço! 🙂

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  7. Olá Heloisa! Parabéns pelo modo como encara o diabetes, e que isso sirva para os jovens que ficam revoltados e acabam não se cuidando. Tb. tenho diabetes tipo 1 há 23 anos, e não vejo dificuldade em me cuidar. Tb. tenho medo das consequências… Um abraço bem doce para vc

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  8. Olá Bianca, tenho uma duvida… Gosto muito de uma garota (22 anos) e ela tem diabetes tipo 1 faz 2 anos, tenho medo do futuro com ela (complicações), pois quero ter filhos e tudo mais. Gostaria de saber se levaremos uma vida normal (lógico, tendo um controle)… Desde já mto obrigado !

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    1. Olá Lincoln! Tudo bem? Então, você não precisa ficar com medo do futuro com ela, pois o diabetes, quando bem controlado, não traz nenhuma limitação física ou psíquica. Muitas pessoas, ao falarem sobre o diabetes, referem-se a ele como uma “doença” ou uma “enfermidade”. O diabetes apenas se transforma em doença quando as pessoas não se preocupam em buscar a informação e em manter um bom controle. Aquelas pessoas diabéticas que buscam constantemente manter um equilíbrio glicêmico e ter bons hábitos têm uma vida perfeitamente normal, e nada as impede de serem felizes, realizadas e saudáveis.Pode ficar tranquilo que vocês terão uma vida normal e muito feliz! Um grande abraço!

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      1. Obrigado Bianca, não sabe o quanto me ajuda viu, gosto demais dessa garota… Se Deus quiser dará tudo certo !!

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  9. Bianca, muito obrigado pelo teu depoimento. Além do Diabetes tipo I, que apareceu em 2000, e do Hipotireoidismo, diferentemente da grande maioria dos diabéticos, também contraí outras doenças crônicas, de fundo neurológico e psiquiátrico. A minha crença religiosa espírita me ajuda a lidar com isso, pois além de me mostrar que nada é por acaso, faz o amor ao próximo e a mim mesmo darem um sentido maior pra minha existência. E o motivo principal pra não fraquejar é saber que tenho uma linda filha, quase com 12 anos, que depende de mim, independente dos meus altos e baixos. As crises de hipoglicemia nem são tão complicadas assim, o mais difícil é ter força de vontade pra fazer os tão necessários exercícios físicos, de maneira equilibrada. Queria deixar uma palavra de confiança para todos, pois há pessoas com problemas ainda mais sérios que conseguem lidar bem ser felizes, assim como venho lutando a cada dia, mesmo sendo doce demais,como vocês. rs Abraços fraternos e obrigado pelo seu espaço e pela sua iniciativa! Já havia perdido o medo da morte, hoje estou perdendo o medo de viver 😀

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    1. Que legal Alexandre! Fico muito feliz em saber que estamos ajudando as pessoas com diabetes a lidarem melhor com a sua disfunção, tendo uma melhor qualidade de vida e uma vida mais feliz! Muito obrigada pelo seu depoimento! Um grande abraço! 🙂

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  10. OIb Heloisa meu nome e Sonia sou a mae da Isabella que tem 6 anos e e diabetica a 1 ano e e paciente da D.Maria Claudia,como digo a mãe de todos os pacientes,gostaria de conversar com vc,estivemos no encontro do ano passado na furb ,se vc puder entrar em contato agradeço,pois acho q com sua experiencia,vc tem como ajudar bastante,abraços..

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